A sonda InSIGHT aterrou em Marte em fins de Novembro do ano passado. Passaram já cerca de cinco meses, e a missão continua a decorrer. É verdade que não tem havido grandes novidades: a sonda é estacionária, não está à procura de água ou sinais de vida – o seu trabalho é recolher dados sobre o interior do planeta. Para isso, como foi divulgado, possui dois instrumentos principais: um sismómetro, e a famosa “toupeira” com o sensor de temperatura para avaliar o calor interno de Marte (ou melhor, o fluxo térmico naquela região do planeta).

Na recente Assembleia Geral da EGU, uma das maiores reuniões de geocientistas na Europa, houve algumas sessões dedicadas à apresentação do estado actual das coisas no que diz respeito a esta inovadora exploração.

A missão teve um início auspicioso: a aterragem correu bem (mesmo com os famosos sete minutos de pseudo-terror de que a NASA e alguma imprensa tanto gostam), num local perfeito para os objectivos em vista: determinar a estrutura interna do planeta, avaliar a actividade sísmica, o fluxo térmico e o meteorítico.

A apresentação de P Lognonné ficou marcada pelo entusiasmo do autor, que proclamou a chegada da sismologia a outro planeta, algo pelo qual se batia há décadas… O sismómetro começou a funcionar quando ainda estava montado no corpo da sonda; registou inúmeras vibrações devidas ao vento e às alterações de temperatura (tal como sucedeu no caso dos sismómetros montados nos módulos de superfície da missão Viking). Quando colocado sobre o solo, o sismómetro continuou a registar oscilações, mas menos acentuadas e cíclicas, que foram interpretadas como resultado de fenómenos atmosféricos já esperados. Ao fim de alguns sols, foi-lhe colocado o escudo, desenhado para evitar essas influências, sejam o vento ou as variações de temperature. Resultado? Ao fim de 66 sols de actividade continua, ainda não foi registado qualquer sinal inequívoco de um sismo marciano. A estimativa inicial era de que fosse possível detectar um evento por trimestre, ou quatro por ano. A realidade está a revelar-se bastante menos vibrante… De qualquer forma, o estudo continuará, evidentemente, e até mesmo a ausência de sinal sísmico pode dar pistas sobre o interior de Marte.

Quanto à toupeira, ou HP3 de seu verdadeiro nome… depois de instalada a 12 de Fevereiro numa área aparentemente adequada, sem rochas à vista, e de alguns testes para diagnóstico, a penetração no solo marciano começou no dia (terrestre) 28 de Fevereiro. Ao fim de alguns centímetros, porém, não se conseguiu fazer avançar o instrumento. A profundidade exacta não é conhecida, mas é estimada entre 30 e 38 cm. A causa deste impasse também é desconhecida, embora alvo de muita especulação; a razão mais lógica é ter encontrado uma pedra no caminho; mas outras possibilidades são a perda de tracção (por falta de atrito) ou a existência de uma camada endurecida sob a superfície (hipótese que parece recolher os favores da equipa alemã responsável pelo HP3). Todas elas estão a ser analisadas. O facto é que no dia 4 de Março se executou uma sessão de “marteladas” (já que o instrumento avança graças à percussão por um peso) ao longo de cinco horas – sem qualquer progressão visível. No dia 26 foi realizada uma curta série de novos impulsos, para diagnosticar o funcionamento de todo o aparelho. Um problema de certa forma inesperado é que não existe um número ilimitado de pancadas no futuro – o desgaste das partes móveis do instrumento significa que ele não poderá funcionar indefinidamente; e já foram “gastas” cerca de 9000 pancadas… Esperemos que seja possível ultrapassar este obstáculo (e não, não é possível “puxar” a toupeira e recomeçar noutra posição!), e que os dados tão esperados venham a ser recolhidos.

Para lá disso, a InSIGHT continua a recolher dados sobre o (primaveril) tempo local: temperaturas e ventos, que podem aliás ser conhecidos aqui. A missão tem ainda muitos dias (e sols) pela frente, e dar-nos-á por certo muitos dados para expandir a nossa compreensão sobre a evolução do planeta vermelho.

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