Este tema está dividido em 4 partes:

Parte 1 – Parte 2 – Parte 3 – Parte 4

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Lugares onde o céu caiu em cima da Terra – Parte 4

A memória prega partidas, é sabido. Os mais de 10 anos que passaram não o desculpam, e ainda menos pelo facto de haver papéis e fotografias a documentar estas viagens… mas as coisas são como são, e de alguma forma convenci-me de que a visita à Meteor Crater tinha sido a terceira desta lista. Não foi. Quando preparava este texto, verifiquei que na realidade a minha terceira visita a uma cratera de impacto tinha sido na Jordânia, no fim de 2009.

No programa da “I Conferência Árabe de Impactos”, que teve lugar em Amman, figurava a visita a uma cratera recente… no facto de ter sido descoberta, no leste do país, em pleno deserto pedregoso. (Além disso, havia Petra, e o Wadi Rum, o do Lawrence.) O nome da cratera? Jebel Waqf as Suwwan.

Localização da cratera. © Google Maps.

Ao que parece, quer isto dizer, em árabe, “montanha de cherte íngreme”… Tinha sido reconhecida por uma equipa alemã de cartografia geológica nos anos 60, mas como uma estrutura bizarra, circular, e com um centro elevado. Origem desconhecida, portanto… vulcânica, pois então. Mas em 2006 novos estudos desencantaram uma série de indícios geofísicos e petrográficos que apontaram para a origem por impacto; os habituais PDFs em cristais de quartzo e outras típicas micro-estruturas. E shatter cones.

Mas já lá vamos. A viagem foi longa e, mesmo em Novembro, quente.

Um pouco mais quente do que Marte. © José Saraiva.

Depois de deixar a estrada asfaltada, as Pick-Ups meteram pelo deserto, a princípio com muita areia. Os condutores locais dividiam-se em dois grupos: os experientes, e os outros. Calhou-me um dos outros. Ao fim de poucos minutos, estávamos atascados, com as rodas presas na areia até meio.

Como não desatascar uma Pick-Up. © José Saraiva.

Não fomos os únicos. As manobras para libertar os carros foram, digamos, morosas, e tudo isso atrasou o programa, e cortou fortemente o tempo de visita à cratera – a orla deixou de constar do programa, e ficámos com a elevação central, que ainda estava a uns valentes quilómetros.

Parte da elevação central. © José Saraiva.

Depois de algumas explicações e questões, o grupo dispersou pelas imediações, olhando para aqui e para ali.

Os geólogos espalharam-se pela terra. © José Saraiva.

Havia um depósito de entulho de uma exploração mineira que em tempos ali funcionara, e foi sugerido que se procurassem amostras interessantes por lá (se havia cobras por ali, com tanta gente em volta já se tinham metido nos buracos mais fundos). Tirei o jackpot, já que apanhei um belo exemplo de shatter cones…!

A amostra de calcário com shatter cones. © José Saraiva.

A cratera tem cerca de 6 km de diâmetro, e uma idade desconhecida, que se pensa ficar entre 37 e 56 milhões de anos. O objecto que a criou devia ter umas centenas de metros de diâmetro (as estimativas diferem). As rochas que constituíam o alvo eram bastante heterogéneas, e reagiram de forma diferente a um impacto oblíquo, criando uma estrutura complexa, com fracturas e dobras. Além disso, tendo em atenção o tempo que passou, estima-se que tenham sido erodidos da superfície original (depois do impacto) entre 300 e 500 metros.

Sim, sim, aqui há uma cratera! (Onde é que eu já vi isto?). © José Saraiva.
Dobra das camadas calcárias. © José Saraiva.
A elevação central vista da orla da cratera. © José Saraiva.

A Conferência foi muito interessante (e foi aqui que conheci, tarde demais, alguns dos elementos do museu de Nördlingen). A Jordânia também. A cratera – bem, foi mais um exemplo claro de que a Terra é um planeta complicado para a sobrevivência de crateras de impacto na sua forma original. Mas elas existem, e continuam a ser descobertas. Só não podemos fiar-nos simplesmente numa forma de terreno arredondada… Há que meter o nariz nas rochas. É o que fazem os geólogos.

 

Não existe muita informação de acesso livre sobre esta cratera remota. No entanto:

Página da Meteoritical Society com os dados de Jebel Waqf as Suwwan (e que pode ser usada para pesquisar outras crateras).

Outra base de dados sobre os impactos na Terra – inclui bibliografia (de acesso protegido).

 

Nota: o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

 

ENGLISH VERSION

This theme has four parts

Part 1Part 2 Part 3 – Part 4

Places where the heavens fell on Earth – Part 4

Memory plays tricks on us, and that’s well-known. It’s been more than 10 years, though that’s no excuse, particularly when there is a paper and picture trail documenting these travels… still, things are what they are, and that’s how I somehow became convinced that the trip to Meteor Crater had been the third in the list. It wasn’t. While preparing this text, I discovered that, in reality, my third impact crater had been visited in Jordan, in late 2009.

The program for the “I Arab Impact Conference”, held in Amman, included a visit to a crater recently… discovered, in the east of the country, right in the middle of a rocky desert. (There were also Petra and the Wadi Rum, of Lawrence fame.) The crater name? Jebel Waqf as Suwwan.

Location of the crater. © Google Maps.

Apparently, this is Arabic for “mountain of steeply inclined chert”… It had been recognised by a German geologic mapping team in the 60’s, but, being a bizarre structure, ring-like, and with a central uplift, its origin wasn’t clear. So, of course, it had to be volcanic. However, in 2006, new studies found geophysical and petrographic evidence that it was in fact an impact crater; among the clues, PDFs in quartz crystals and other typical micro-structures. And shatter cones.

We’ll get back to them. The trip was long and hot, even if it was November.

A little warmer than Mars. © José Saraiva.

After leaving the tarmac, the Pick-Ups ventured into the desert, in a sandy area. The local drivers came in two groups: the experienced, and the others. I had one of the others. A couple of minutes into the sand and we were stuck, half of the wheels buried in the sand.

How not to free a Pick-Up from the sand. © José Saraiva.

We weren’t the only ones. The exertions to free the cars were time-consuming (let’s leave it at that). The result was that the available time for the visit to the crater was frankly shortened – the rim dropped out of the program, and we were left with the central uplift, which was still a few kilometres away.

Part of the central uplift. © José Saraiva.

After some explanations and questions, the group dispersed around the area, looking this way and that.

Geologists spreading out over the land. © José Saraiva.

There was a dump mound from a mining endeavour of a few years ago, and it was suggested that it could be a good place to find interesting samples (if there were any snakes around, all the noise and bustle had driven them to the deepest holes). I got the jackpot, and came home with a nice example of shatter cones…!

The limestone sample with shatter cones. © José Saraiva.

The crater is almost 6 km in diameter, and of unknown age, that is believed to be between 37 and 56 million years. The impactor was probably a few hundreds of metres in diameter (there are divergent views on this). The rocks in the target area were rather heterogenous and reacted differently to an oblique impact, creating a complex structure with fractures and folds. On top of that, given all the time that has passed since the creation of the crater, it’s believed that between 300 to 500 metres of rocks have been eroded.

Yes, yes, there’s a crater around here! (Again?). © José Saraiva.
A fold in the limestone layers. © José Saraiva.
The central uplift viewed form the crater rim. © José Saraiva.

The Conference was really interesting (this is where I met, a little too late, some of the people from the Nördlingen museum). And so was Jordan. As for the crater – well, this was another clear example that Earth is a complicated planet for the survival in pristine conditions of impact craters. Still, they exist, and are still being discovered. It’s just that we cannot claim that each and every roundish structure in the terrain is a crater… You have to stick your nose in the rocks. That’s what geologists do.

 

There’s not that much information freely available about this remote crater. However:

Page of the Meteoritical Society about Jebel Waqf as Suwwan (and usable to search for other impact craters).

Another database about impacts on the Earth – includes some references (paid access).

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