Em tempos, ExoMars foi o nome de uma grandiosa missão da ESA, que incluiria um rover de grandes dimensões e capacidades, que procuraria sinais de vida em Marte. Havia ilustrações magníficas, modelos à escala real. Havia tecnologia a ser desenvolvida. E depois… não houve nada.

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Depressa esse sonho começou a encolher, a mudar, a ser revisto, cancelado, retomado, alterado. Rovers mais modestos, estações de superfície, colaborações com os russos, os americanos, os russos outra vez, ao sabor de decisões políticas, cortes de orçamento, revisões de conceitos, planos e objectivos.

Numa dessas incarnações, uma certa estação de superfície esteve a ponto de levar um instrumento a construir em Portugal. Chegou a existir um consórcio formado, entre Universidades e empresas, um projecto apresentado à FCT. Porém, não havia garantias, a ExoMars continuava a ser uma ideia nebulosa, sujeita às variações de humor da economia , de um lado a FCT não se resolveu, do outro o DLR alemão (responsável pelo conjunto  que incluiria o instrumento “português”) não garantiu nada. E essa versão exomarciana acabou abandonada. (Embora o tal instrumento não tenha morrido, e siga, em princípio, para Marte daqui a uns tempos, a bordo de outra sonda, e construído por austríacos.)

ExoMars passou a ser o nome de um programa. E é como parte desse programa que o módulo Schiaparelli desce em Marte; nada de grandioso, apenas uma tentativa, uma demonstração de que a Europa, a ESA, é capaz de fazer descer alguma coisa até à superfície do planeta vermelho sem partir… Este módulo está muito longe, em termos de instrumentação, do Beagle 2, aquela espécie de relógio de bolso que viajou até Marte à boleia da Mars Express, mas que nunca deu notícias depois da separação, e que só recentemente foi descoberto, na superfície, sim, mas calado para sempre. De facto, leva uma espécie de estação meteorológica para medir parâmetros da atmosfera, e uma câmara que funcionará apenas durante a descida, obtendo umas poucas imagens para dar conta de como correm as coisas. Além disso, o Schiaparelli funcionará enquanto durarem as baterias de bordo, que não têm qualquer forma de se recarregarem. Pouca coisa, portanto.

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Mas de facto existe outro componente na missão que vai depositar este módulo na terra vermelha de Marte. O Trace Gas Orbiter é mais uma tentativa de compreender a composição e a dinâmica da atmosfera do planeta. Recolherá dados sobre a presença de várias espécies químicas que permitirão, em princípio, ganhar maior confiança numa das hipóteses que se colocam relativamente ao metano presente no invólucro gasoso de Marte: a biológica (produção de metano por micro-organismos no solo de Marte) ou a geológica (em que o metano é criado em resultado de uma sequência de reacções químicas que afectam rochas marcianas). Este trabalho, porém, só começará em 2017; até lá, a sonda prosseguirá a sua satelitização em Marte, recorrendo à travagem atmosférica. E, nos próximos dias, servirá também de ponto de passagem para as comunicações entre o Schiaparelli e a Terra.

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