Sidereus Nuncius – O Mensageiro das Estrelas – foi publicado por Galileu Gallei em Veneza, em Março de 1610. A sua tradução portuguesa surgiu quatrocentos anos depois, em 2010, pela Fundação Calouste Gulbenkian. Sim, as extraordinárias novidades que este livrinho trouxe ao conhecimento do mundo já foram sobejamente divulgadas, e tornaram-se parte integrante do saber comum… pelo menos para uma boa parte da população, espera-se. À primeira vista, não faz muito sentido que nos debrucemos sobre elas. E de facto não é esse o cerne desta pequena nota. Lembremos apenas que, nesta obra, Galileu se debruça sobre as suas observações da Lua, das estrelas, e dos quatro grandes satélites de Júpiter, revelando grandes novidades de um Universo ao tempo praticamente desconhecido.

Mas vale a pena falar desta edição portuguesa, e muito. O pequeno livro divide-se em várias partes: uma nota de abertura, um prefácio, um estudo introdutório, uma breve cronologia, a tradução propriamente dita, e o facsimile do original em latim.

Arrumemos então a nota de abertura, da autoria do Prof. Sven Dupré, que se limita a preparar o terreno. O prefácio começa a revelar a importância deste pequeno volume. A tradução é evidentemente importante, e é acompanhada de notas que proporcionam esclarecimentos e mais material de leitura para quem quiser aprofundar o tema; e para quem quiser experimentar o latim, o facsimile é de todo imperdível.

Mas é o “estudo introdutório”, que ocupa o coração e a maior parte das páginas deste volume,  que contém o seu  “sumo”. Henrique Leitão, nome incontornável da História da Ciência em Portugal, e senhor de profunda erudição, leva-nos numa viagem sobre a História e as histórias da vida de Galileu e da Ciência, enriquecendo de forma extraordinária esta edição. Discute em primeiro lugar o novo instrumento surgido à época, o telescópio, que permitiu a Galileu realizar as suas observações, depois de o estudar, compreender e melhorar grandemente; as observações propriamente ditas, da Lua, das estrelas fixas e de Júpiter e dos seus satélites, que lhe deram bases para sustentar a sua adesão ao sistema heliocêntrico de Copérnico; o contexto politico e social em que Galileu escreveu a obra, com as suas preocupações com a gestão da carreira e da fortuna (coisa que o sábio italiano nunca descurou); as observações que Galileu realizou posteriormente e divulgou noutras obras (entre as quais avultam as de Vénus, com a sua sucessão de fases, de Saturno, o estranho planeta tripartido, e das manchas solares). Debate a seguir o extraordinário impacto desta pequena obra de Galileu, em Itália (com a primeira edição esgotada numa semana) e por toda a Europa, com ênfase na aprovação de Kepler e na lamentável resposta de Galileu depois de a ter assegurado (não é segredo que H. Leitão é um admirador incondicional de Kepler), e o aparecimento de críticas e da questão religiosa. Por fim, fala da sua recepção em Portugal e da utilização por parte dos jesuítas, grandes responsáveis pela educação superior no pais; realça-se a publicação na China, em 1615, de uma obra em que se fala pela primeira vez em chinês das observações de Galileu – e que foi escrita por um missionário jesuíta português que nunca vira um telescópio, mas a quem a informçaõ chegara pelos canais da Companhia de Jesus.

São portanto várias as razões para ler este livro. A importância histórica, o seu testemunho de um dos grandes passos da Humanidade; a importância astronómica, pelas revelações que encerra e que tanta influência tiveram no desenvolvimento da Ciência; e a extraordinária explicação de tudo o que o envolve, exposta pelo tradutor. De facto, este é um livro de Henrique Leitão, em que está incluído o Sidereus Nuncius. Como se costuma dizer, vale mais tarde do que nunca… Portanto, em boa hora nos chegou este Mensageiro.

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